Pedro Costa e Pierre Perrault: Intercessão, força ficcional, força documental (Portuguese Edition) Buy on Amazon

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Pedro Costa e Pierre Perrault: Intercessão, força ficcional, força documental (Portuguese Edition)

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Book Details

ISBN / ASIN1490995528
ISBN-139781490995526
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Description

Excerto — O cineasta apanha o autocarro e chega às Portas de Benfica, em Lisboa. Não está ali o décor de Ossos e de No Quarto da Vanda, embora nem tudo esteja demolido. Apanha outro autocarro, na Venda Nova, e segue até um novo bairro de realojamento, em Casal da Boba, Amadora. Alguns daqueles com quem fez os filmes anteriores encontram-se aí, sombras de outros lugares. Com esta transição, de pessoas e vidas, de espaços, mesmo de Continentes e séculos, a que mistura pedaços da própria história do seu trabalho, tudo concentrado numa só personagem, num só homem, Ventura, começa a fazer outro filme, Juventude em Marcha. Pedro Costa filma na base de uma relação de longo termo com o que é filmado e com quem é filmado, relação que pode estender-se por vários filmes, com a rodagem a durar anos. Considerando em particular No Quarto da Vanda e Juventude em Marcha, mas igualmente tudo o que se seguiu a No Quarto da Vanda, há, claro, que incluir nessa possibilidade de trabalho a alteração dos meios do cinema introduzida pelo vídeo digital. Em todo o caso, a construção destes filmes, feita no limiar e na permuta entre cinema de ficção e documentário, não deriva em linha recta da alteração dos meios: as razões do trabalho, implicando o cinema e o mundo, aquilo que cinema e mundo são e o que podem ser, dizem igualmente respeito ao cineasta na medida mais decisiva. E há um outro cineasta — um poeta que, na sua terra, se sente separado da vida que o rodeia: o saber, o discurso corrente, tudo isso ele sente não corresponder às ruas da cidade, à paisagem, à vida viva dos homens. Este homem foi tocado, na Île-aux-Coudres, no Québec, Canadá, por uma palavra prolixa, uma palavra que se alimenta a si própria, cheia de mitos, tecida na substância da vida vivida. Havia um povo sem lugar na cultura e sem poeta e poema que o cantasse — mas que era detentor de uma palavra que ele nunca tinha ouvido, e que o começava a dizer, a ele próprio, Pierre Perrault — o outro cineasta em apreço. Em primeiro lugar, a palavra. E Perrault passou do gravador de som à câmara — porque faltava, nos testemunhos sonoros que recolhia, o homem por onde a palavra fala, o homem vinculado à palavra. Aqui, foram os meios do cinema directo que lhe deram essa possibilidade. Pedro Costa, cineasta português, é um cineasta de ficção, e Pierre Perrault, cineasta canadiano do Québec, é um documentarista. Pierre Perrault fala em testemunho e em reflexão, Pedro Costa fala em objecto a construir e em fazer bem o trabalho. O que é que significa a convicção profunda de Pierre Perrault, desenvolvida nos seus escritos, sempre repetida nas suas entrevistas, da separação radical entre o documentário e o cinema de ficção? E por que é que esta mesma questão não tem nenhum interesse prático para Pedro Costa, como o próprio diz? Perrault e Costa procuram coisas diferentes com os filmes, posicionam-se diferentemente perante o que filmam e com o que filmam: os laboratórios cinematográficos que cada um deles erigiu são muito diferentes, fazendo de maneiras diferentes, em contextos diferentes, com um horizonte histórico e artístico diferente. Perrault persegue a palavra viva no seu jorrar, ligada ao crescendo dramático da situação e ao crescendo dramático da sua própria relação com o que é filmado, como na reconstituição da pesca em Pour la suite du monde, ou como na construção e comunicação do poema em La bête lumineuse. Em Costa, a palavra não só surge separada da sua enunciação primeira, mas é igualmente desdramatizada — e é nisso que ela se intensifica, como nas pequenas histórias de si contadas pelas suas personagens, ou como na carta constantemente recitada por Ventura em Juventude em Marcha. Não é o mesmo acto de filmar, não é a mesma relação com o que é filmado e com a arte. Mas, em ambos, naquilo que os seus filmes vêm a ser, a intercessão é o resultado. E com isto, de um a outro, os dois grandes territórios do cinema, o cinema de ficção e o documentário, sofrem deslizes que os transformam.
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