Alfinetes de Prismas - a poesia como nunca se viu (Portuguese Edition)
Book Details
Author(s)Fábio Braga
ISBN / ASINB00WLC84S0
ISBN-13978B00WLC84S4
Sales Rank99,999,999
MarketplaceUnited States 🇺🇸
Description
Uma das maiores revelações da poesia brasileira, Fábio Braga de Alencar produziu uma obra impossÃvel de ser feita - reunir poemas e prosas em um só contexto. O livro de 200 páginas é um convite aos amantes da boa leitura porque é uma Pizza de Verso e Prosa que não cansa, quanto mais se lê mais dá vontade de morder com os olhos a outra fatia.
FOME
Meus filhos não comeram hoje, mas amanhã hão de comer; eu tenho dois braços fortes para plantar e para colher; se a chuva voltar logo e a seca não castigar, na nossa mesa, todo santo dia, alimento para matar a fome de dez não faltará
Quando a fome ataca no coração do nordeste, a saÃda é montar no lombo do jumento, galopar léguas até à prefeitura e apelar pela boa vontade da autoridade, que na eleição prometeu acabar com a fome na região
Assim que na cidade eu chego, ouço a triste notÃcia de que o prefeito viajara; fora à BrasÃlia pedir outro tanto de verba, porque o que enviaram não dera nem para os salários dele e dos vereadores... imaginem se daria para abastecer as casas de milhares em estado de miséria!
Como eu já estava na rua, aproveitei que passava muita gente, a maioria de crucifixo na mão e no pescoço, e tentei explorar o coração e o bolso dos católicos, fiéis ao padre CÃcero Romão
Fiz as pessoas chorarem, contando a minha triste história, mas, ao me interromperem, contando a história deles também , eu não aguentei, com eles eu formei um coro, e houve tanto choro que as lágrimas encheram baldes e baldes, exatamente no dia que o carro-pipa não veio - é que todo mundo pelo prefeito aguardava; fazia semanas que por aquelas bandas ninguém o via, e no ar uma pergunta só: “onde estaria o doutor prefeito numa hora dessas, em que tem brasileiro morrendo à mÃngua no meio do sertão?â€
Para sobreviver nas terras áridas do nordeste, o sertanejo se transforma em um ser mutante; assim como lagarta que vira borboleta os tecidos da pele morrem e por baixo nascem outros mais resistentes, os órgãos do corpo se regeneram por eles mesmos, e no lugar dos órgãos fracos, surgem outros mais potentes, para no limite subsistir na esperança de escapar por mais tempo da maior decepção do homem, que é a morte, morrida por escassez de alimento
A fome do sertanejo é a maior do planeta, o ronco da sua barriga com fome é ouvido até em marte, quebra a lei do silêncio universal, é a chamada fome crônica, pena que nunca é erradicada, sempre vem de novo, a cada estiagem, a cada voto para se reverter a situação
O pior é que não tem solução para ela, a estiagem parece que não finda, a irrigação passando por aqui ainda é um sonho e o jeito é o povo arribar, arribar, arribar ou murchar, murchar, murchar, pois quem fica é quem sofre, se desespera, não vê luz de cesta básica no fim do túnel, se pela no sol ardente, seca, seca, feito folha desidratada, e seu último olhar é a visão de um pedaço de pão
Como a chuva não veio, vou vender a propriedade, dou pelo preço de dez passagens que nos levem à metrópole, porque se a famÃlia aqui permanecer, infelizmente, por causa da fome, terei de sepultar no solo em brasas do sertão um amado filho meu de cada vez, tal qual efeito dominó
DOR
Quando não se quer morrer nem viver, como quem não saiba o que deva sentir, vive-se para viver ou para não se ter de morrer, fecham-se os olhos no sentido de não se ver ou para que se vejam sem sentir o que não se queira crer
Se a voz se cala, o corpo congela, os pensamentos paralisam no tempo, nem o mormaço nem o vento, somente os nervos de aço corroendo por dentro
Não se sabe se a hora é de ficar ou partir, pensar ou agir...
quando nada mais interessa, para que a pressa?
Se a esperança é a primeira a morrer, a dor da saudade torna a ferir e o fio da navalha a socorrer
FOME
Meus filhos não comeram hoje, mas amanhã hão de comer; eu tenho dois braços fortes para plantar e para colher; se a chuva voltar logo e a seca não castigar, na nossa mesa, todo santo dia, alimento para matar a fome de dez não faltará
Quando a fome ataca no coração do nordeste, a saÃda é montar no lombo do jumento, galopar léguas até à prefeitura e apelar pela boa vontade da autoridade, que na eleição prometeu acabar com a fome na região
Assim que na cidade eu chego, ouço a triste notÃcia de que o prefeito viajara; fora à BrasÃlia pedir outro tanto de verba, porque o que enviaram não dera nem para os salários dele e dos vereadores... imaginem se daria para abastecer as casas de milhares em estado de miséria!
Como eu já estava na rua, aproveitei que passava muita gente, a maioria de crucifixo na mão e no pescoço, e tentei explorar o coração e o bolso dos católicos, fiéis ao padre CÃcero Romão
Fiz as pessoas chorarem, contando a minha triste história, mas, ao me interromperem, contando a história deles também , eu não aguentei, com eles eu formei um coro, e houve tanto choro que as lágrimas encheram baldes e baldes, exatamente no dia que o carro-pipa não veio - é que todo mundo pelo prefeito aguardava; fazia semanas que por aquelas bandas ninguém o via, e no ar uma pergunta só: “onde estaria o doutor prefeito numa hora dessas, em que tem brasileiro morrendo à mÃngua no meio do sertão?â€
Para sobreviver nas terras áridas do nordeste, o sertanejo se transforma em um ser mutante; assim como lagarta que vira borboleta os tecidos da pele morrem e por baixo nascem outros mais resistentes, os órgãos do corpo se regeneram por eles mesmos, e no lugar dos órgãos fracos, surgem outros mais potentes, para no limite subsistir na esperança de escapar por mais tempo da maior decepção do homem, que é a morte, morrida por escassez de alimento
A fome do sertanejo é a maior do planeta, o ronco da sua barriga com fome é ouvido até em marte, quebra a lei do silêncio universal, é a chamada fome crônica, pena que nunca é erradicada, sempre vem de novo, a cada estiagem, a cada voto para se reverter a situação
O pior é que não tem solução para ela, a estiagem parece que não finda, a irrigação passando por aqui ainda é um sonho e o jeito é o povo arribar, arribar, arribar ou murchar, murchar, murchar, pois quem fica é quem sofre, se desespera, não vê luz de cesta básica no fim do túnel, se pela no sol ardente, seca, seca, feito folha desidratada, e seu último olhar é a visão de um pedaço de pão
Como a chuva não veio, vou vender a propriedade, dou pelo preço de dez passagens que nos levem à metrópole, porque se a famÃlia aqui permanecer, infelizmente, por causa da fome, terei de sepultar no solo em brasas do sertão um amado filho meu de cada vez, tal qual efeito dominó
DOR
Quando não se quer morrer nem viver, como quem não saiba o que deva sentir, vive-se para viver ou para não se ter de morrer, fecham-se os olhos no sentido de não se ver ou para que se vejam sem sentir o que não se queira crer
Se a voz se cala, o corpo congela, os pensamentos paralisam no tempo, nem o mormaço nem o vento, somente os nervos de aço corroendo por dentro
Não se sabe se a hora é de ficar ou partir, pensar ou agir...
quando nada mais interessa, para que a pressa?
Se a esperança é a primeira a morrer, a dor da saudade torna a ferir e o fio da navalha a socorrer
